segunda-feira, 27 de abril de 2009

Delírios de um Elefante

Era uma triste situação. Deixara de ser quem era, abdicara de si para tentar a sorte na aventura que era a conquista do coração dela. No entanto jogava contra o destino, e só agora reparara que tudo lhe estava a passar ao lado, tudo lhe fugia por entre os dedos. Ela, parecia infinitamente não lhe estar destinada mas, apesar de tudo, era com o nome dela que o seu peito batia.
Mas porquê partir agora? Logo agora que até pareciam dar-se bem. Porquê Jerusalém? Porquê tão longe? Porquê um ano?

No fundo a sua dor não era nova. Era a mesma que sentira anos antes. Há muito que sabia quem ela era. Lembrava-se dela desde um passado longínquo. A sua luz, o seu brilho, a sua cor, aquelas características que o impressionaram tanto e abalaram a sua realidade naquele primeiro momento históricamente situado, eram as mesmas com as quais sonhara ao longo do tempo, e as mesmas que o fizera rezar e esperar sem desesperar, por um qualquer encontro que fosse.

E agora, tudo isso o revoltava. Parecia de propósito para o magoar. Depois de tanta espera, de recordações constantes, sonhos assaltantes das noites escuras em que no seu quarto vivia, agora, quando via o sonho prestes a realizar-se, o oriente a aproximar-se, quando finalmente chegara a ela, via alguém, que não conhecia bem, e a quem não reconhecia competência para tal, estragar todo o seu sonho amoroso, e toda a possibilidade de quietude, levando-a para longe dele. E pior: ela até gostava da ideia.

Fitava a casa do poeta e perguntava-se como seriam as noites por entre aquelas quatro paredes. Páginas e páginas escritas, construções de babeis sem fim, amor pintado em folhas de papel de máquina por letras pretas; no fundo, o amor cantado por entre palavras silenciosas. Mas sofrera ele aquela dor? Todos os dramas, todas as tragédias, todo o sofrimento que trespassava daquelas letras... Teria alguma delas uma dor assim tão grande? Doer-lhe-ia assim tanto o coração?

Por momentos acreditara na solidão e tristeza eternas. Acreditou que poderia viver assim - sem ela.
Depois ela voltou. Sentou-se ao seu lado, e continuaram a conversar. Só o seu riso o fazia esquecer todo aquele problema que lhe corroía o coração e lhe impedia a razão. No fundo, ele até suportava a saudade que daí adviria, mas tinha a certeza que a perderia.

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